sábado, 27 de agosto de 2011

O Choro no Estige


Quando sua passagem pelo Estige
Juntamente a estes cantos iniciou-se
Reúnem-se as mais belas ninfas tristes
A recordar como ele era doce

Doce e belo, mesmo em seu amargo fim
Vejo chorarem as águas por sua perda
Como eu assim chorei ao perdê-lo de mim
Lamentaram-se todas as Nereidas

Por não ter cedido a nenhum dos anseios
Recusastes a todo vão pedido
Aceita então o destino que te veio
Quando viu a si mesmo refletido

A paixão traga pelo cupido
Que te condenou, pobre Narciso
Passastes a viver sobre esta margem
Morrendo e amando a sua própria imagem

Agora levado por Caronte
Procurando neste leito, por onde
Andaria seu magnífico amado
Porém nele, nada foi encontrado

E chorou lágrimas inexistentes
Desejando morrer novamente
Então de Narciso nasceu tal flor
Que conhecem, hoje, estas ninfas sua cor

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Condicional


Existe chuva, acenda um cigarro
Existe sol, enxague bastante
Existe lama, lave-se bem
Existe silêncio, dance até tarde

Registre o saldo, passe da conta
Evite o álcool da sobriedade
Rasgue aquelas cartas e então ligue chorando
Vale a pena montar tudo e depois destruir, rindo.

É lindo te ver em ação, a cada vez
Sabendo o que faz por um momento
Estático ou em movimento variado
Sempre haverá objetivo em seus atos

Se só há risos, então chore
Se só há desculpas, não perdoe
Quando há palavrões, faça um gesto
Se há razão, você perdeu o jogo

Se entregue e então, peça condicional
Se afogue, talvez o mar não te leve longe
Grite algo, ainda que alguém não vá ouvir
Estrague tudo outra vez, e saberá viver.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Reflexo


À quem ama seu reflexo
Como fruto de suas ações
Está destinado todo o nexo
Contido em cada única decisão

À quem foge do espelho
Tal como corre o coelho
À este destina-se a incerteza
Que o condena e faz sua presa

E à quem não toma cuidado
E acaba sendo próprio escravo
Servo de sua imagem compartilhada
Que tanto zelava para nada

À este cabe um destino conciso
Tal o que coube a Narciso
Levado de sua vida por um motivo
Que deveria deixá-lo vivo

E quem tanto esconde-se sob a luz
De um suposto ser que ele produz
É quem quebra o espelho todo dia
A fim do término de sua agonia

Tentativas de livrar-se do anseio
Todas as horas repetidas por receio
Que a lona fosse retirada de sobre o espelho
Que à tona viesse a reluzir seu segredo

Varridos e recolhidos do chão
Pedaços intactos de sua ação
Fragmentada em cacos de vidros
Que mostram seu reflexo perdido

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Contradizendo-se


Em baixo de mim
Esconde-se uma vida
Que ao contrário de mim
Segue em contrapartida

Eu sigo esses passos
As notas marcadas ao sol
Orquestrando casos
Que são meus e não são mais

Que se contradizem
E encontram-se bem alto
Repetem-se e se contrapõem
No som de um contrabaixo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Barulho


Isso pode soar como barulho para você
Mas eu posso sentir como música aos meus ouvidos
Eu posso ouvir todo o ruído do mundo
Só não quero ter que ouvir os seus gritos

E eu poderia te mostrar os sons que eu sei fazer
Mas você só escutaria coisas sem sentido
Ou poderia apenas falar dos meus dons pra você
Mas tudo o que eu falasse seria inaudível

Pois só quem tem os sentidos bem apurados
Pode perceber as minhas diferenças e semelhanças
E de quem sejam as palmas e os gritos abafados
Não importa. Eu sei, ninguém pode calar essas crianças

Você pode ouvir o som da colisão ou da pancadaria
Ou o som de uma mastigação que desça doce pela língua
E tudo o que eu lhe mostrar pode parecer apenas gritaria
Porém, no final das contas, toda a surdez que você possui, é minha.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Arquivado


Eu possuo em minhas mãos
Todas as informações dessa ação
Corrente em que me encontro
Vítima ou culpado, inocente ou não

Quem dera se o seu caso
Já houvesse sido arquivado
Nessas gavetas empoeiradas
Do meu almoxarifado

Porém ele segue em aberto
O procedimento correto
Até que se termine, enfim encerrado
E solucionado do jeito certo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Sou Alguém

Eu sou alguém que não me conheço
Tenho armas que podem falhar
Às vezes eu mudo e não sei quem pareço
Sou um visitante que veio ficar.

Eu não conto com o amor de ninguém
Nem ligo pras coisas que não me convém
Não tenho angústia, nem dor, nem bem algum
Só sei que sou alguém.

Não vou buscar coisas que se perderam
No tempo e não podem mais voltar
Sou alguém mais que alguém por si só
Tudo o que faço é procurar o meu lugar

Enquanto prossigo em meu caminho
Todos insistem, mesmo eu estando sozinho
Que tudo é incerto e a vida – quem dirá?
Mas eu tenho que continuar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Instante Inconstante

Incessante
Eu não canso
Nenhum instante
Senão eu danço
Mais adiante

Inconstante
Eu alcanço
De relance
Meu descanso
Delirante

Sou informante
A dizer que a mudança
É a constante
Cuja dança
Relevante
Ainda avança
Ao horizonte
Que se lança
Em variantes

Relutante
Vou em frente
Militante
Sempre ciente
Que logo se ande
E que se oriente
Por bússola errante
Que, porém não mente
Ao velho praticante

E se expande
A todo o momento
Ecoando como um grito
Dissonante
O pensamento
Que mesmo o tempo
Não é infinito

Nenhuma constante
É permanente
E os instantes
Ou são para sempre
Ou estão perdidos
Dentro das mentes
Constantemente

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Algo Sobre Festas

Eu não sabia que festas
Podiam deixar as pessoas tristes
Porque essa me deixou

E não sabia que nas festas
Eu poderia dar palpites
Pois eu não sei o que ela optou

E não sabia que para entrar em festas
Você deve estar sempre quite
Com o dono do show

O que sabia sobre festas
É que você não precisa de convites
Depois que já entrou

O que eu já sabia sobre festas
É que é fácil ser esquecido
Se a madrugada já terminou

O que eu sabia sobre festas, era
Que para achar um rosto conhecido
É mais difícil quando envolve amor

Todos foram embora e só eu fiquei
Com garrafas vazias e um coração partido
Porque, na melhor parte, a festa acabou

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Miséria Das Nuvens

Eu tenho inveja das nuvens
Que voam sem que ninguém as impeça
Alcançam as maiores altitudes sem medo de cair
E que andam sem nenhuma pressa

Eu tenho inveja de todas as nuvens
Que nos calam com apenas um trovão
E chovem e desaguam sem, no entanto,
A reprenderem por chorarem tanto em vão

Elas voam, se entregam ao céu por inteiro
Podem dominá-lo ou abandoná-lo, mas nunca esquecê-lo
Sem medo de cobrir os raios de sol ofuscantes
Pois não precisam obedecê-lo, elas vivem errantes.

Eu tenha pena dessas nuvens
Que sofrem irrequietas, andantes
Se tornam imensas, mas se desfazem em uma tempestade
E tornam a ser o que eram antes

Eu tenho muita pena dessas nuvens
Que voam sem saber por o porquê ou para onde.
São sempre as mesmas, só mudam o tom
Elas vão e desaparecem para sempre no horizonte

E que Deus tenha piedade dessas nuvens
Que nem sequer sabem o que são.
Deve ser triste viver assim, por isso choram
Elas têm apenas ao sol, o céu e a imensidão.
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